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F.A.Q. – Perguntas Frequentes

O conceito de santuário para elefantes está longe de ser algo trivial, provoca muitos questionamentos e, algumas vezes, dúvidas. Algumas perguntas são relativamente simples, enquanto outras, como, por exemplo, “Como é o processo de recuperação dos elefantes?”, são muito mais complexas. Todas são importantes, por isso dedicamos esta página para responder a essas perguntas e tornar o projeto o mais transparente possível. Caso tenha dúvidas, fique à vontade para entrar em contato conosco através do e-mail info@santuariodeelefantes.org. Sua participação é muito importante.

Em algumas respostas, fazemos referências a santuários que tomamos como modelo. Essas referências vêm do: aprendizado adquirido durante as quase duas décadas de trabalho de parte de nossa equipe no Santuário de Elefantes do Tennessee (EUA) – The Elephant Sanctuary in Tennesse (TES) e de relatórios, congressos e reuniões nos Santuários PAWS – Performing Animal Welfare Society, na California (EUA), Elephant Nature Park, na Tailândia e no Santuário de Vida Selvagem do Camboja, no Camboja.

Quando Scott Blais, um de nossos diretores, fundou o The Elephant Sanctuary in Tennesse, em 1995, o santuário era o primeiro desse tipo. A equipe não sabia ao certo o que esperar, mas sabia que os elefantes precisavam de muito mais do que o cativeiro lhes oferecia. Agora, pode-se afirmar, sem dúvida, que esse modelo de santuário funciona para todos: elefantes, comunidade, meio ambiente e vida selvagem. É um modelo de sucesso em que todos se beneficiam.

De onde virão os elefantes?

Todos os elefantes virão de locais onde se encontram em cativeiro. São elefantes que passaram sua vida toda em circos e zoos de toda a América do Sul, América Latina e, talvez, de outros continentes. Praticamente todos esses elefantes foram capturados na natureza quando filhotes (com exceção de algum que tenha nascido em cativeiro – não há casos no Brasil). Os bebês asiáticos, logo depois de capturados, passaram por um processo de tortura chamado “quebra de espírito” (para que aprendessem a se submeter aos seres humanos) antes de serem colocados em caixas e enviados para outros países para passarem a vida em exibição. Todos eles passaram a vida em confinamento, muitos sem companheiros de sua espécie. O conceito de um santuário é deixar que desfrutem, ainda que em cativeiro, de uma vida a mais próxima possível de uma vida normal.

Por que mantê-los em um santuário? Por que não enviá-los de volta à natureza para que se reabilitem em seu habitat natural?

Há muitas razões pelas quais não é possível enviar esses elefantes de volta à natureza. Citamos aqui algumas:

  • Depois de décadas vivendo em um espaço insuficiente para seus grandes corpos e mentes inteligentes, sem a sociabilização inerente à espécie, sem estímulos e cuidados adequados, a maioria dos elefantes cativos desenvolve doenças crônicas, tanto físicas como psicológicas, muitas das quais requerem cuidados médicos por toda a vida.
  • A sobrevivência de elefantes na natureza depende de sua segurança, que é obtida através de fortes laços familiares, relacionamentos que se formaram ao longo de muitos anos e conhecimentos que foram transmitidos de geração para geração.
  • Não é possível salvar as espécies de elefantes fazendo a reintrodução de indivíduos cativos na vida selvagem. O que é necessário é que os espaços que os elefantes selvagens ainda habitam sejam preservados e as populações remanescentes da caça predatória por marfim sejam protegidas, se queremos que as futuras gerações de crianças da Ásia e da África vejam elefantes.

Elefantes não são nativos do Brasil. Não seria perigoso introduzi-los na natureza, sem risco para o meio ambiente?

É fundamental nos lembrarmos de que não estamos introduzindo elefantes na natureza no Brasil. A fazenda onde o projeto está sendo desenvolvido será completamente cercada, com cercas e materiais adequados e projetados especificamente para um santuário desse tipo, mantendo os elefantes dentro do espaço e possibilitando a migração de vida selvagem nativa. O projeto será completamente manejado. Além disso, não haverá reprodução – portanto, a população de elefantes será mantida sob controle.

No santuário-modelo TES, nos EUA, que recebe elefantes desde 1995, observou-se não somente a preservação do meio ambiente, como, inclusive, um aumento da biodiversidade, com atração de animais nativos e proliferação de espécies. Animais são atraídos pelos resíduos de grãos e de frutas que os elefantes deixam cair, insetos são atraídos pelas fezes dos elefantes e estes, por sua vez, junto com sementes não digeridas, atraem mais mamíferos e pássaros. O sistema digestivo dos elefantes permite que digiram menos da metade dos alimentos que ingerem. As fezes dos elefantes são ricas em nutrientes, e eles devolvem sementes intactas, envoltas nesses nutrientes, para o solo, espalhando-as por áreas enormes. Por isso, são chamados de “jardineiros das florestas” (veja artigo). A vegetação antes degradada da fazenda que ali existia recuperou-se e floresceu com o projeto do santuário.

Sobre elefantes não serem nativos do Brasil, nosso parceiro e colaborador, o cientista Dr. Mauro Galetti, professor do Instituto de Biociências (IB) – Laboratório de Biologia da Conservação e do Departamento de Ecologia, da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Rio Claro, comenta: “O mundo todo, com exceção da Austrália, sempre teve proboscídeos, até a poucos anos atrás. No Brasil, até menos de 10 mil anos atrás vivia o Stegomastodon (veja artigo), de 6 toneladas. (veja PDF) Você pode ver as imagens desses simpáticos ancestrais dos elefantes atuais, clicando aqui e aqui e um pequeno vídeo feito pela Universidade de Oxford, com base em estudos do Dr. Galetti, aqui.

Onde está localizado o Santuário de Elefantes Brasil?

Em uma fazenda no estado de Mato Grosso, no município de Chapada dos Guimarães. A propriedade fica a 40km do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, e a 30km da área de proteção ao redor do parque (se considerada uma linha reta) e está cercada por grandes fazendas usadas para plantação de soja e criação de gado.

Quais as características da propriedade?

O terreno do santuário é formado, essencialmente, por dois vales, se abrindo a leste e oeste, com uma pequena montanha no centro. A parte norte tem terreno levemente ondulado, acabando em uma encosta de cerca de 15 metros de altura, formando uma perfeita barreira natural. Os vales principais têm diversos pequenos recantos e sulcos, que se espalham em todas as direções. Um riacho percorre um dos vales, e um rio, o outro. Como se isso já não fosse perfeito, inúmeras nascentes têm origem na propriedade, provendo água límpida para as árvores, para os pastos cultivados, para a abundante vida selvagem já existente no santuário e, claro, para os elefantes, que precisam da água não somente para beber, mas para se refrescar. (veja artigo)

A propriedade foi, por muito tempo, usada para criação de gado, e tem campos de grama cultivada, muitos dos quais com espécies originárias da África, junto com campinas de grama nativa. Há uma mistura de árvores típicas do Cerrado, árvores grandes e palmeiras, típicas de matas ciliares, ao longo dos córregos e dos vales verdejantes onde as nascentes têm origem. Essa terra é realmente espetacular, com vales escondidos, trilhas e recantos que desafiarão os elefantes.

Essa propriedade é uma área isolada, remota e pacífica que servirá como um lar maravilhoso para os elefantes, atendendo a todas as suas necessidades. Pequenas e suaves colinas com pastos verdejantes, árvores e água fresca abundante são adequadas para indivíduos mais velhos ou com a saúde debilitada. E morros íngremes, grandes seixos, densas florestas e muitas trilhas escondidas irão desafiar os mais jovens e os que tenham condições físicas para fazer explorações. Proveremos um mundo idílico para que sarem, enquanto oferecemos décadas de experiência e a paciência e o respeito necessários para permitir que os elefantes se recuperem completamente de uma vida inteira passada em cativeiro.

Como o santuário será mantido?

As organizações envolvidas no gerenciamento do santuário serão mantidas através de doações privadas, vindas do público, de fundações e empresas. Não receberemos fundos do governo.

Os elefantes destruirão o habitat?

Não. Sabemos, com base nas experiências de sucesso de outros santuários, inclusive o do Tennessee, que os elefantes terão um impacto positivo no ecossistema, promovendo o aumento da biodiversidade. Tanto a flora como a fauna serão beneficiadas. É importante considerar vários fatores-chave que minimizam ou eliminam essa preocupação.

Teremos uma densidade populacional baixa. Quando calculamos a diferença entre o gado e os elefantes, por exemplo, vemos que na região onde estamos, o gado é manejado numa taxa aproximada de uma cabeça por hectare. Se algum dia alcançarmos nossa capacidade máxima de residentes – cerca de 50 elefantes -, o que é pouco provável, isso significará um elefante para cada 18-20 ha.

A grande maioria dos elefantes que viverá no santuário é da espécie asiática (Elephas maximus), que vive, por natureza, em florestas, alimentando-se de gramíneas, trepadeiras e frutas. Dispersam sementes, promovem o nascimento de mudas e abrem corredores naturais que são usados por animais silvestres. São considerados os jardineiros das florestas tropicais. (veja artigo)

Os elefantes africanos (Loxodonta africana) que vierem viver no santuário terão um setor próprio, onde já existem pastos abertos, alguns naturais e outros cultivados que eram usados para a antiga atividade de criação de gado. Isso porque os elefantes dessa espécie têm hábitos diferentes: gostam de comer galhos e podem ter um impacto um pouco maior sobre as árvores e abrir algumas clareiras. Mas também gostam de grama, trepadeiras e frutas, como os asiáticos.

A propriedade será dividida em numerosas seções, e idealmente várias delas estarão disponíveis para cada grupo – machos, fêmeas, elefantes asiáticos e elefantes africanos. O sistema de “seções” nos permitirá fechar áreas que possam precisar de algum tempo para rejuvenescer. Isso não é uma exigência em nossos santuários-modelo, mas é algo que desejamos que esteja disponível, para o caso de optarmos por fazer assim.

Como os elefantes impactarão a vida selvagem?

Elefantes são espécies pacíficas, não são predadores de nenhum animal e, não são presas de nenhum animal que exista no Brasil. Coabitam de modo tranquilo com outras espécies. Na verdade, com base em nossos santuários-modelo, deve haver um aumento da fauna na propriedade, já que alguns animais são atraídos pelos resíduos de grãos e de frutas que os elefantes deixam cair. Além disso, insetos são atraídos pelas fezes dos elefantes e estes, por sua vez, junto com sementes não digeridas, atraem mamíferos e pássaros. O santuário também oferece uma zona de segurança para espécies que são caçadas por humanos.

Poderia ocorrer um problema de alta densidade populacional de vida selvagem nativa limitada pelas cercas dentro da área do santuário?

As cercas internas de contenção dos elefantes são projetadas com vãos estratégicos que permitem a migração de toda vida selvagem. Alguns mamíferos de pequeno porte irão, simplesmente, cavar sob a cerca do perímetro (a cerca para humanos, que rodeia a propriedade) e felinos e primatas usarão os galhos das árvores para atravessar o perímetro.

Quem irá prover os cuidados necessários para os elefantes abusados e maltratados?

Os elefantes serão cuidados e observados por uma equipe experiente e treinada, 24h por dia.  Os diretores do Global Sanctuary for Elephants – Scott e Kat Blais estão morando no Brasil desde julho de 2014 para supervisionar o desenvolvimento do projeto do SEB, sua operação, treinamento da equipe e tratamento de elefantes. Esses dois especialistas em elefantes trazem consigo décadas de conhecimento e experiência em projetos, instalações e operação de santuários, em cuidados com elefantes em cativeiro, em sua recuperação e tratamentos veterinários.

Como é o processo de reabilitação dos elefantes?

Esta é uma questão complexa e multifacetada. Antes de mais nada, é importante dizer que elefantes, assim como pessoas, têm características individuais e respondem de modo diferente a crises, traumas e desafios enfrentados durante a vida. Alguns manifestam estresse e ansiedade de modo físico, com o desenvolvimento de úlceras ou o comprometimento de seu sistema imunológico, enquanto outros desenvolvem problemas de comportamento, como os neuróticos estereotipados, padrões repetitivos de balanço do corpo e/ou da tromba, comportamentos de automutilação, de agressão e interiorização profunda (desligando-se do estresse que lhes é imposto pelo cativeiro). A recuperação de cada um desses elefantes é diferente. O primeiro passo é criar um ambiente que atenda às necessidades naturais dos elefantes e prover a eles autonomia, a oportunidade de sentirem que têm algum controle sobre suas vidas. Então, temos que estabelecer confiança, temos que deixar que saibam que os respeitamos como indivíduos. Com confiança, eles aprendem que podem se expressar livremente, com um comportamento positivo ou negativo, sem punição. Por décadas, todos esses fatores primordiais foram suprimidos. Alguns se esquecem de como expressar prazer ou raiva, principalmente porque aprenderam que o que sentiam não fazia diferença alguma. Num circo, se demonstrassem sequer um sinal de comportamento negativo, eram punidos. Nos zoos, os recintos não lhes oferecem estímulos, causando uma falta de resposta emocional, porque tudo ali nunca mudará, por décadas. Com autonomia, confiança e comunicação, começam a expressar quem eles são, permitindo que vejamos do que gostam e do que não gostam, melhorando o relacionamento com os tratadores e nossa habilidade de prover a eles tratamento de saúde a longo prazo. Para cada elefante, o processo de recuperação é diferente, não existe uma fórmula que funcione para todos. Entretanto, existe ainda um fator fundamental para acelerar o processo de cura de qualquer um deles: a companhia de outros elefantes, que oferecem empatia e estímulos de um modo como nenhum ser humano poderia fazer.

O projeto tem intenção de construir um hospital veterinário para os elefantes?

Construiremos alguns centros de cuidados médicos, sem paredes, através do habitat. Eles terão uma área de contenção para tratamentos críticos e paredes de treinamento com contato protegido, onde os elefantes receberão treinamento através de reforço positivo. Desse modo, a equipe de tratadores estará em segurança, enquanto os elefantes recebem o melhor tratamento possível.

Se elefantes não puderem se reabilitar, qual o procedimento?

Com base em dezenas de elefantes com os quais nossos especialistas trabalharam, alguns deles considerados extremamente agressivos e outros que haviam sido pivôs de casos trágicos nos Estados Unidos, podemos afirmar, com tranquilidade, que todos os elefantes podem ser recuperados. Para alguns, esse processo ocorrerá quase que imediatamente, enquanto, para outros, levará alguns anos até que confiem plenamente em humanos e em si mesmos. No processo de recuperação oferecido, o espaço amplo, a autonomia e o acesso a outros elefantes são críticos para a recuperação de qualquer elefante.

Haverá áreas separadas de contenção, para o caso de uns não se darem bem com outros enquanto estão se adaptando ao local?

O santuário é projetado para o pior cenário, com alguns elementos que são raramente usados – ou jamais usados -, mas que ficam à disposição caso sejam necessários. Cada habitat, para cada espécie e gênero, é ainda subdividido, permitindo flexibilidade para o gerenciamento das instalações e separação de grupos de elefantes caso seu comportamento peça isso.

Como os elefantes irão interagir uns com os outros, considerando-se que muitos não tiveram grandes experiências sociais com outros elefantes?

A essência natural dos elefantes é sua alta sociabilidade. Na natureza, formam famílias, grupos de famílias ligadas por fortes laços e clãs. E quando há referências à reabilitação em um santuário, o que aprendemos com base em nossa experiência e na dos santuários modelo é que a maioria dos elefantes se integra perfeitamente. Mais do que isso, alguns que viveram sozinhos por décadas se tornaram parte integrante de um grupo social em apenas algumas horas (veja artigo). Para os que precisem de um pouco mais de tempo e espaço antes de se integrarem aos outros, as instalações são projetadas para acomodar isso, enquanto tratadores experientes empregam técnicas que os ajudem a se ajustar completamente à sua nova vida. Um santuário, embora seja algo complexo devido às dificuldades naturais dos cuidados com as espécies e ao trauma sofrido por elas em cativeiro, é fundamentalmente simples. Provê proteção, espaço e autonomia para que elefantes sejam elefantes.

Diferentes espécies de elefantes ocuparão o mesmo espaço?

Nossas instalações são projetadas para que elefantes asiáticos e africanos fiquem separados. Mesmo havendo casos em que elefantes dessas diferentes espécies são mantidas em cativeiro no mesmo espaço, há grandes diferenças sociais entre elas, tanto de comportamento como de comunicação. Para sua recuperação, conforto e para que possam viver do modo mais próximo possível da dinâmica natural de uma família de elefantes, as duas espécies serão manejadas separadamente.

Quantos elefantes o Santuário de Elefantes Brasil pretende manejar?

Há cerca de 50 elefantes em cativeiro na America do Sul. Mesmo sabendo que nem todos poderão vir viver no Santuário de Elefantes Brasil, nosso espaço e nossas instalações poderiam acomodar todos eles. Estamos aqui para ajudar no que for possível e cuidar de todos os elefantes que precisem de um santuário. Brevemente, apresentações de animais em circos serão proibidas em todo o continente; há zoológicos que não podem mais manter seus elefantes, que ficam cada vez mais enfermos, conforme envelhecem; e há os zoológicos que receberam elefantes resgatados de circos e não possuem estrutura e experiência. O Santuário de Elefantes Brasil tem o espaço, o conhecimento e a experiência para prover cuidados críticos e de longo prazo a elefantes em necessidade.

Por que o Brasil?

Atualmente, há 11 estados e alguns municípios no Brasil que têm leis proibindo a exibição de animais em espetáculos de circo e há um projeto de lei para proibição em território nacional (o Projeto de Lei nº 7.291/2206, que aguarda votação desde 2006 no Plenário da Câmara dos Deputados). Na América do Sul, cinco países já proibiram o uso de animais em circos e dois outros países logo seguirão esse passo. Não apenas haverá elefantes sem lugar para ir, como muitos zoos estão procurando por ajuda. Com cortes de despesas, elefantes enfermos e falta de espaço para acomodar essas espécies, alguns já estão tentando achar soluções. Mais do que isso, os órgãos governamentais precisam de uma solução viável e adequada para destinar os elefantes que são apreendidos.

Qual a comparação entre o clima da região onde está localizado o Santuário de Elefantes Brasil e o dos locais onde hoje vivem elefantes na natureza, na África e na Ásia?

O clima aqui é ideal! As variações de temperatura estão dentro dos mesmos limites. Um dos grandes benefícios do clima daqui é que não será necessária a construção de grandes celeiros fechados, como nos Estados Unidos, por exemplo, para acomodar os elefantes nas horas mais frias dos períodos de inverno. Isso reduz enormemente nossas despesas de construção e manutenção e, o mais importante, permite que os elefantes fiquem o tempo todo ao ar livre.

Como os elefantes se adaptarão ao santuário, vivendo em grandes áreas abertas, convivendo com outros elefantes e tendo que aprender a buscar por alimento para suprir a maior parte de sua dieta?

Muitos elefantes passam por essa transição de modo muito harmonioso. Alguns ficam um pouco nervosos por alguns dias, mas, sem exceção, todos se moldam a seu novo mundo. Isso não surpreende, já que estamos apenas provendo um espaço onde possam viver e agir como um elefante normal viveria e agiria. Um santuário os devolve a um modo de vida mais natural.  Já foi observado que elefantes agressivos tornam-se passivos e elefantes que viviam sozinhos tornam-se sociáveis. Certa vez, uma aliá que havia sido tachada de antissocial, assassina e autista pelo zoo onde vivia, mostrou que não era nem um pouco parecida com essa descrição. Em dois anos vivendo no santuário, ela era gentil, cooperativa e até se tornou líder e mentora de outros elementos do grupo. Com relação a buscar o próprio alimento, não há nada mais natural do que um elefante comendo grama. Para alguns elefantes, pode ser a primeira vez que estejam até mesmo andando sobre a grama, o que faz com que parem por alguns segundos, mas depois começam imediatamente a comê-la. O mesmo acontece com aqueles que tinham grama em seus pequenos recintos, mas que não podiam comê-la devido à contaminação do terreno por sua própria urina. Comer grama e buscar por trepadeiras e frutas são coisas que todo elefante sabe fazer. Não é um comportamento aprendido.

Qual será a dieta dos elefantes? Apenas o que eles mesmos encontrarem ou terão suplementos ou comida oferecida pelos tratadores?

A dieta primária será formada por grama nativa e cultivada (há pastos cultivados na propriedade, já que a fazenda era usada nas últimas décadas para criação de gado), trepadeiras e frutas, e alguns elefantes (os da espécie africana), também se alimentarão de galhos. Haverá suplementos diários de frutas, vegetais, grãos, elementos nutritivos e digestivos e medicação prescrita por nossos veterinários. O volume exato de suplementos irá variar com a saúde de cada indivíduo e com a disponibilidade de grama nos pastos. É vital para a recuperação dos elefantes e para seu retorno a um modo de vida mais natural que tenham amplas áreas para pastarem e explorarem em busca de alimentos, como fazem os elefantes na natureza 20 horas por dia ou mais. Isso provoca estímulos mentais, faz com que seus corpos retornem a um modo de funcionamento mais natural, melhorando suas funções gastrointestinais e nivela o desgaste de seus molares, com um impacto positivo em sua saúde. Como comprovado nos santuários-modelo, o retorno a uma dieta e a um modo de ingestão mais naturais tem um impacto positivo imediato em sua saúde.

Como os elefantes serão contidos na propriedade?

A área toda será cercada por um sistema duplo de cercas. Currais cercados por tubos de aço foram projetados para manterem os elefantes dentro de seus espaços, enquanto que uma cerca de segurança em todo o perímetro manterá a separação das áreas internas das pessoas que eventualmente estejam em áreas externas. As cercas internas de contenção dos elefantes são projetadas com vãos que permitem a migração de toda vida selvagem, e a cerca do perímetro terá passagens planejadas, em alguns locais, para a mesma finalidade, sem comprometer a segurança. Alguns mamíferos de pequeno porte irão, simplesmente, cavar sob a cerca do perímetro e felinos e primatas usarão os galhos das árvores para atravessá-la.

Esse é um projeto novo, que envolve muitas conceitos. Que tipo de preparação, planejamento e estudos estão sendo feitos?

Considerado novo para muitos, este projeto está sendo preparado e planejado por nossa equipe desde 2010. Como mencionado acima, um dos membros chave de nosso time, Scott Blais, CEO do Global Sanctuary for Elephants, foi pioneiro desse modelo de sucesso em tratamento de elefantes, fundando o santuário TES em 1995, e tem mais de 25 anos de experiência nesse trabalho, tendo cuidado de mais de 50 elefantes, advindos de vários tipos de cativeiro. Essa experiência direta no trabalho com elefantes cativos, combinada com seu conhecimento em projeto, desenvolvimento e operação de santuários, é fundamental para o sucesso do santuário. Temos também a honra de contar em nossa equipe com a notável e mundialmente renomada Dra. Joyce Poole, etologista especializada em comportamento e comunicação de elefantes, cofundadora da organização científica ElephantVoices, que desenvolve projetos de conservação na África. PhD. em comportamento de elefantes pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido, estuda o comportamento social e a comunicação dos elefantes africanos há mais de 35 anos e tem dedicado sua vida à sua conservação e ao seu bem-estar. Seu vasto conhecimento científico dá embasamento ao plano de manejo do santuário, assegurando que a vida e a essência natural dos elefantes sejam respeitadas e honradas, levando em consideração o comprometimento causado pelo cativeiro.

O santuário será aberto a visitação?

Não, o projeto visa essencialmente o conforto e a recuperação dos elefantes. Futuramente, será construído um centro de visitantes na cidade, onde haverá informações disponíveis sobre aspectos biológicos, físicos e comportamentais de cada espécie. Serão ministradas palestras e os visitantes poderão acessar imagens de câmeras colocadas em diversos locais do santuário, com transmissão ao vivo. Essas imagens estarão também disponíveis na internet, para que estudantes e interessados em geral possam aprender sobre os hábitos dos elefantes e observar como se comportam quando estão na natureza. Esse sistema existe há anos no santuário modelo dos Estados Unidos, fundado por Scott Blais, do Global Sanctuary for Elephants e um dos diretores do SEB, e é um sucesso de público, com mais de 1 milhão de acessos por ano. Pretendemos também, no futuro, criar um pequeno centro educacional na borda da propriedade, para receber pequenos grupos de estudo e a instalação de uma ou duas torres de observação próximas à esse centro, fora do perímetro do santuário, para visualização da área e contemplação da natureza do local – isso não garante, no entanto, avistamento de elefantes, já que estarão dispersos por 1100 ha, e sua densidade populacional será baixa. Entretanto, nossa prioridade é construir as instalações essenciais que nos possibilitem ajudar os elefantes, conforme o objetivo principal de nossa organização.

O que pode ser feito? Como podemos ajudar?

Citando Mahatma Gandhi: “A única revolução possível é dentro de nós”. Temos todos que começar a viver de uma forma melhor, consumindo menos e pensando no impacto causado a todos os seres vivos que compartilham este planeta conosco. Todos podemos fazer diferença, com nossas ações diárias e vivendo uma vida mais consciente e com mais empatia. E se desejar ajudar os elefantes, você pode fazer uma doação, compartilhar nosso trabalho e educar outras pessoas. Nós, humanos, tiramos os elefantes de suas famílias na natureza, os trouxemos para outro continente e os aprisionamos em trailers, lonas e recintos de concreto. Precisamos ser aqueles que agora vão devolver a eles sua dignidade e oferecer-lhes uma vida que valha a pena ser vivida.

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