GSfE manifesta-se a favor da proibição do uso de animais em circos em Minas Gerais

elefante asiático libertado de circo

Global Sanctuary for Elephants manifesta-se a favor da proibição do uso de animais em circos em Minas Gerais. MG deve ser o 10º estado brasileiro a proibir essa prática abusiva. Ontem, 18 de Dezembro, o Projeto de Lei 4787/2013 foi aprovado em primeiro turno, com previsão de votação em segundo turno amanhã. O texto foi entregue aos deputados e será entregue ao Governador de Minas Gerais. Acompanhe essa importante movimentação.

Leia o texto na íntegra:

14 de Dezembro de 2013

Assunto: Proposta de proibição de elefantes em espetáculos de circo

Caros Deputados de Minas Gerais,

Passei a maior parte de minha vida trabalhando com e cuidando de elefantes em cativeiro, inclusive em circos, onde ajudei no treinamento tanto de elefantes jovens como idosos. Experimentei, em primeira mão, o uso completo das ferramentas usadas para treinar elefantes e vi os efeitos devastadores que o treinamento baseado em dominância pode ter em sua saúde emocional e psicológica e na estabilidade dos animais que se apresentam em espetáculos. Muitas pessoas não sabem o que acontece nos circos, mas, feliz ou infelizmente, eu sei. Com base em minha experiência, ofereço meu testemunho para apoiar a proposta de proibir o uso de elefantes em circos; uma proibição que visa a proteger os elefantes do tratamento cruel e abusivo inerente aqueles que vivem em circos.

Um treinador de renome ensina de modo convincente que “todos os elefantes apenas desejam matar pessoas,” como se isso fosse algo instintivo. Foi isso que me ensinaram quando eu era novato no treinamento de elefantes, e um deles, pela primeira vez, correu atrás de mim. Eu estava organizando passeios em lombo de elefantes para crianças, e, perto do final do círculo, uma elefanta correu em minha direção e tentou me esmagar entre ela e a plataforma de embarque. Escapei ileso, e durante o resto do dia ela continuou a fazer os passeios. Na manhã seguinte, fui levado para dentro do abrigo onde os elefantes ficavam acorrentados. Com quatro treinadores experientes à minha volta, fui orientado a fazê-la se deitar e espancá-la. Ela imediatamente se deitou de lado. A espanquei com o “bull hook” (bastão que tem um gancho afiado na ponta), como haviam ordenado, e então meu chefe me chamou e disse, “Ela tentou te matar. A não ser que você queira que ela se torne perigosa, você tem que ficar bravo. Você tem que fazê-la saber que você está no comando”. A surra continuou por outros 30 minutos até que tanto a elefanta como eu estivéssemos submissos ao regime. A experiência terminou com um “Não deixe ninguém do público saber que você fez isso.” Com 16 anos, acreditei em meus superiores, e achei que os elefantes tinham que se conformar. Infelizmente, mais de 20 anos depois, essas mesmas práticas persistem em circos e também em muitos outros impérios de manejo de elefantes em cativeiro.

Com personalidades que variam numa gama tão grande quanto as dos humanos, e uma inteligência emocional que vai ainda mais além, os elefantes cativos suportam uma dor que poucos humanos podem compreender. As técnicas tradicionais de manejo de elefantes usadas em circos baseiam-se no medo e na intimidação. Ao estabelecer um nível de medo no elefante, você o mantém no limite, pois ele sabe que você tem a capacidade de causar-lhe dor, o que, frequentemente, é feito sem provocação. Essa necessidade de instilar medo é, basicamente, baseada no próprio medo; treinadores sabem o potencial estrago que elefantes podem causar. O medo que os treinadores e tratadores dos elefantes sentem é real, elefantes podem atacar de modo rápido, forte e violento, de um modo que raramente se compara a como agem na natureza. Mas esse ato não se baseia na natureza do elefante; é, fundamentalmente, um resultado da severa supressão e do abuso que os elefantes em cativeiro têm que aguentar.

Depois de muitos anos trabalhando com elefantes no modo de dominação, para propósitos de entretenimento, percebi que o mundo arcaico dos elefantes cativos precisava mudar. Em 1995, fui cofundador de um santuário de elefantes de 2700 acres (1092 ha) no Tennessee, EUA, para prover um refúgio a elefantes cativos de circos e zoos. Todos os elefantes chegaram com uma gama enorme de doenças físicas, emocionais e psicológicas. Alguns levaram anos para se recuperar de seus traumas, muitos não sabiam como se sociabilizar ou brincar, outros tinham horror a água, e alguns eram tão desconfiados que qualquer ação questionável de um humano desencadeava um ataque de cólera. Todos os residentes do The Elephant Sanctuary demonstraram uma recuperação sem paralelos. Uma vez que o manejo feito por dominância é removido, você pode desenvolver uma relação de cooperação com os elefantes, cuidando de suas necessidades, e alcançar objetivos de comportamento essenciais, através do treinamento com reforço positivo. Você também pode começar a ver os elefantes como eles realmente são: indivíduos sensitivos, inteligentes, cuidadosos, com capacidade única de perdoar e empáticos.

Em Outubro de 2013, me juntei a especialistas internacionais e a uma defensora de elefantes no Brasil, para formar uma nova organização sem fins lucrativos, o Global Sanctuary for Elephants (Santuário Global para Elefantes), dedicada a prover um futuro mais brilhante para os elefantes em cativeiro ao redor do mundo, através do desenvolvimento e do suporte a santuários amplos e de habitats naturais. Nosso projeto piloto, o Santuário de Elefantes Brasil http://santuariodeelefantes.org.br já está em desenvolvimento, trabalhando para dar aos elefantes do Brasil e de toda a América do Sul uma segunda chance e uma vida cheia de dignidade e respeito.

Atualmente, a América do Sul está liderando uma mudança global, com cinco de seus países já tendo proibido o uso de animais em circos. No Brasil, há nove estados que já aprovaram leis similares. Minas Gerais tem uma oportunidade de se juntar a essa mudança positiva. Seu voto é um passo importante na direção da proteção dos elefantes contra esse teimoso abuso que eles passam a vida toda suportando. É tempo de um futuro compassivo e respeitoso.

Obrigado por sua consideração e, por favor, não hesite em contactar-me caso tenha alguma pergunta, ou precise de qualquer auxílio.

Sinceramente,

Scott Blais
CEO- Global Sanctuary for Elephants
www.sanctuaryforelephants.org

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