Maia e Guida estão recuperadas e felizes após 2 anos no Santuário

Maia não resiste a um mergulho na lagoa feita para elas no Santuário e mostra o sorriso maroto, com os cabelinhos arrepiados e molhados

Um pequeno lago construído especialmente para Maia e Guida proporciona diversão e devolve o prazer do contato com a água que usam para se refrescar

Chapada dos Guimarães (MT) – Maia e Guida, as duas primeiras elefantas residentes do Santuário de Elefantes Brasil (SEB), completam em 11 de outubro dois anos de vida em sua nova casa. As “nossas meninas” – como são chamadas carinhosamente pelos tratadores, seguidores nas redes sociais e colaboradores – estão adaptadas e recuperadas dos traumas causados por décadas de exploração em espetáculos circenses.

Na nova vida, já na primeira noite, o silêncio imposto por antigos tratadores e pela falta de motivação foi substituído por diferentes formas de vocalização. Desde então, Maia e Guida se expressam com trombeteios, bramidos, roncos, chiados e sopros, entre os diferentes sons que caracterizam a vocalização de elefantes que vivem na natureza.

Maia e Guida às vezes ficam um pouco sonolentas de manhã e a Maia está sempre pronta para tirar umas sonecas espontâneas

O presidente do Santuário, Scott Blais, mora no SEB com a esposa, Kat Blais, desde o início do projeto. Americanos, eles acumulam décadas de experiência em cuidados com elefantes. Ambos celebram, dia a dia, a evolução do SEB e avaliam que Maia e Guida são reflexos de que o Santuário está conseguindo atingir seus objetivos. “Nos últimos dois anos, Maia e Guida evoluíram de forma a representar perfeitamente todos os elementos que definem o Santuário e sua importância”, diz Scott.

Ele lembra que há dois anos, elas viviam presas a correntes sem poder interagir uma com a outra. “Guida estava perdida em movimentos neuróticos repetitivos, balançando a cabeça em círculos sem parar. Maia ficava sempre na defensiva, era agressiva e fazia o que podia para se preservar e sobreviver, com base em todo o medo que sentia”.

Para Scott, hoje elas estão irreconhecíveis. “Guida tem mania de andar pelo Santuário expressando seu contentamento através de roncos suaves e gentis. Esse som surge através de uma vibração que poderia ser descrita como o ronronar de um elefante”. De Maia, ele destaca que o medo que ela sentia “se transformou em um espírito doce, passivo e brincalhão que adora explorar as noites e tirar longas sonecas de tarde”.

O mais importante, ressalta, é que depois de conviverem por mais de 40 anos, hoje elas finalmente se tornaram uma família. “Dão apoio uma para a outra, brincam e nadam juntas, ou até mesmo fazem sombra para a outra dormir quando uma está deitada sob o forte Sol de Mato Grosso”, relata.

Herbívoras

Maia e Guida são herbívoras, não são presas ou predadoras de outras espécies e, por isso, convivem harmoniosamente com a fauna local. Hoje, as “nossas meninas” caminham livremente por uma área de 29 hectares repleta de palmeiras e árvores típicas do Cerrado.

Maia não resiste a um mergulho na lagoa feita para elas no Santuário e mostra o sorriso maroto, com os cabelinhos arrepiados e molhados

Sua adaptação ao local começou em um espaço de meio hectare, próximo ao galpão do Centro de Tratamento Médico. O recinto foi sendo ampliado gradativamente para 1 hectare, 2, 6 e 10 hectares, até chegar ao espaço atual. Às vezes, fica até difícil localizá-las, seja pelas distâncias que percorrem ou pela camuflagem em meio à vegetação. Um pequeno lago, construído especialmente para elas, proporciona diversão e devolve o prazer do contato com a água que usam para se refrescar.

As duas residentes do Santuário encontram na vegetação local tudo o que necessitam para se manterem saudáveis. No entanto, sua alimentação é complementada com frutas e legumes oferecidos pelos tratadores diariamente. Maçãs, abacaxis, melancias, cenouras, feno e suplementos de vitaminas já proporcionaram ganho de peso e deixaram as duas elefantas mais ágeis e proativas. A rotina diária no galpão é necessária para avaliação do estado de saúde, comportamento e evolução das aliás.

Com idade aproximada de 46 e 44 anos, respectivamente, Maia e Guida são as primeiras elefantas a habitar o Santuário cuja capacidade, em função da extensão da área, é de mais de 50 elefantes.  Como o elefante na natureza vive aproximadamente 70 anos, as duas aliás e os próximos residentes terão muito tempo para desfrutar do novo espaço.

Rainha Guida se coroou com uma folha de palmeira enquanto tomava café da manhã no galpãoCuidados veterinários

Contratada pelo SEB em 2016, a veterinária Laura Paolillo acompanha Maia e Guida desde Paraguaçu, no interior de Minas, onde elas viviam. O processo de adaptação para dar início ao transporte levou 3 dias. A alimentação era fornecida às elefantas dentro da caixa de transporte que permanecia aberta. Elas entravam e saiam da caixa quando quisessem. Foram necessários mais 3 dias e 2 noites na estrada para percorrer os 1,6 mil km. A cada 2 horas se fazia uma parada. A pausa tinha como objetivo dar água ou alimento e avaliar o comportamento dos animais durante a viagem.

O comboio atravessou quatro estados até, finalmente, chegar ao SEB no final de uma tarde ensolarada de outono.  Laura diz que as mudanças que observa nas meninas nesses dois anos de Santuário “são incríveis”. “A Guida parece ter rejuvenescido uns 20 anos. Elas agora vocalizam muito, brincam e trocam carinhos. É um sentimento incrível poder acompanhar esse desabrochar delas”, diz a veterinária que trocou anos de trabalho em clínicas no Rio de Janeiro pelo desafio de cuidar de Maia e Guida no interior de Mato Grosso.

Além do comportamento mais alegre, Maia e Guida estão, também, mais fortes. “Fisicamente, a diferença mais incrível é que agora elas têm uma musculatura bem desenvolvida, onde antes só havia flacidez e atrofia pelo desuso. Elas estão cada vez mais independentes e confiantes, felizes e levando uma vida de elefante pela primeira vez”, complementa Laura.

Santuário

Localizado no distrito de Rio da Casca, município de Chapada dos Guimarães, a 110 km de Cuiabá, capital de Mato Grosso, o Santuário tem área de 1,1 mil hectares. A vegetação é típica de Cerrado. A antiga fazenda de gado foi especialmente adaptada para receber os elefantes que se encontram em cativeiro no Brasil e outros países da América do Sul.

Sua implantação e funcionamento contam com apoio de duas instituições internacionais dedicadas a elefantes. A Global Sanctuary for Elephants (GSE) dá suporte à implantação de santuários e treinamento para tratadores. A ElephantVoices pesquisa comportamento de elefantes na natureza.

 Toda a manutenção do projeto vem de doações e a colaboração pode ser feita de diversas maneiras. A fila de espera para o Santuário tem pelo menos 9 elefantes, sendo 3 no Brasil, 1 no Chile e os demais na Argentina.

“Você pode ajudar e se unir aos nossos esforços de oferecer aos elefantes uma nova vida e fazer parte deste mundo transformador do Santuário”, convida o presidente do Santuário. É fácil contribuir e as doações, em qualquer quantia, podem ser feitas no link www.elefantesbrasil.org/doe.

Paisagem vista de um dos mirantes no Santuário de Elefantes mostra paredões que definem limites da propriedade ao fundoVista do Santuário que fica no distrito de Rio da Casca, em Chapada dos Guimarães, a 110 km de Cuiabá (MT)

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